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25/01/2026 às 14:03, Atualizado em 25/01/2026 às 15:07

“Medicina virou comércio”: Enamed expõe falhas na formação médica e desigualdade entre cursos em MS

Dos seis cursos de Medicina avaliados no Estado, quatro tiveram desempenho satisfatório e dois ficaram abaixo do padrão

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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) de 2025 trouxe à tona um retrato desigual da formação médica em Mato Grosso do Sul. Dos seis cursos de Medicina oferecidos por universidades no Estado, quatro obtiveram conceitos considerados satisfatórios e dois ficaram com nota 2, classificação avaliada como insuficiente pelo MEC (Ministério da Educação) e pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

As instituições com desempenho insatisfatório (nota 2) são privadas: a Universidade Anhanguera-Uniderp, em Campo Grande, e a UniCesumar, em Corumbá. Já os cursos bem avaliados pertencem a universidades públicas estaduais e federais.

No grupo das instituições com notas entre 4 e 5 — consideradas satisfatórias — estão a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, com nota 4; a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, com nota 5; a UFMS de Três Lagoas, também com nota 5; e a UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), em Dourados, que igualmente alcançou a nota máxima.

O Enamed é uma avaliação anual aplicada pelo MEC, por meio do Inep, com o objetivo de medir o desempenho dos estudantes de Medicina e a qualidade da formação oferecida pelas instituições de ensino superior. A prova também pode ser utilizada para aproveitamento em processos seletivos de programas de residência médica, como o Enare (Exame Nacional de Residência).

Avaliação institucional

Entre os cursos que alcançaram conceito máximo no Enamed está o de Medicina da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados). Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado, o reitor da UFGD, professor Jones Dari Goettert, avaliou que o resultado reflete um trabalho coletivo e contínuo desenvolvido pela universidade ao longo dos anos.

“O resultado do Enamed com a nota 5 do curso de Medicina da UFGD reflete o importante trabalho de toda a universidade, de toda a Faculdade de Ciências da Saúde e, principalmente, do nosso curso de Medicina, muito bem articulado com o nosso hospital universitário. Esse desempenho reflete a atuação de muitos anos de um curso que conta com um corpo docente altamente qualificado, com um corpo técnico-administrativo de alta competência e com uma infraestrutura que, mesmo com seus limites, é fundamental para garantir um ensino de qualidade”, afirmou.

Segundo o reitor, a formação médica oferecida pela UFGD está diretamente ligada à integração entre ensino, pesquisa, extensão e assistência, com foco na saúde pública.

“Garantimos uma formação genuína das nossas alunas e alunos para uma atuação na saúde, especialmente na defesa da saúde pública e do SUS. Esse resultado também é parte de uma articulação consistente entre a UFGD, o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde e todas as instituições que constroem conosco o curso de Medicina e a nossa atuação em Dourados e região”, completou.

Desempenho dos alunos

Além da avaliação institucional, o Enamed também mensura o nível de proficiência dos alunos concluintes. Em Mato Grosso do Sul, apenas os estudantes da UFMS de Três Lagoas alcançaram 100% de proficiência: todos os 49 concluintes participantes atingiram o nível considerado adequado de aprendizagem.

Na sequência aparecem a UFMS de Campo Grande, com 92,7% de proficiência; a UFGD, com 90,3%; e a UEMS, com 77,1%. Já as instituições com conceitos insatisfatórios apresentaram índices significativamente menores: a Universidade Anhanguera-Uniderp registrou 58,2% de proficiência entre os concluintes, enquanto a UniCesumar de Corumbá ficou com 47,4%.

Ao todo, 461 alunos concluintes de Medicina em Mato Grosso do Sul participaram da avaliação. O MEC esclareceu que os estudantes que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem não sofrerão prejuízos diretos, como suspensão do diploma ou impedimento para colar grau. Durante a apresentação dos dados, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o objetivo do exame não é punir instituições ou alunos.

“O objetivo não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil”, declarou o ministro.

“Medicina virou comércio”

A avaliação do Enamed também expõe a percepção crítica dos próprios estudantes sobre a formação recebida. Matheus Portocarrero, aluno do último semestre de Medicina da Universidade Anhanguera-Uniderp, avalia que falhas estruturais e o elevado número de acadêmicos por turma impactam diretamente a qualidade do ensino.

“Acredito que algo que falha na formação é a dificuldade de aprofundar os estudos em conteúdos de alta importância para provas de residência e para o Enamed”, afirmou.

Segundo ele, algumas turmas iniciam o curso com mais de 200 alunos, o que dificulta o acompanhamento acadêmico e a seleção adequada dos estudantes.

“Apesar da grande desistência dos que não se encontram aptos, muitos acabam graduando após inúmeras reprovações, tornando a Medicina um comércio, onde acadêmicos com mais condições financeiras conseguem arcar com custos e dependências e se formam apesar da insuficiência de conhecimento”, criticou.

Apesar das críticas, Matheus afirma que obteve bom desempenho individual e reconhece que a metodologia ativa favorece os alunos mais dedicados.

“Creio que a metodologia ativa torna a formação ainda mais função do acadêmico. Os mais interessados se destacam, mas muitos acabam sabendo apenas o essencial para passar de ano, sem dedicação suficiente”, afirmou.

Ele pondera ainda que, embora a Uniderp tenha fornecido base para sua formação, há desigualdade entre os egressos.

“A Uniderp me deu a base para buscar minha suficiência profissional, assim como a muitos colegas que hoje são exímios médicos, mas também existem exemplos de colegas nas mãos dos quais eu não confiaria a minha saúde ou a de familiares”, concluiu.

Ao Jornal O Estado, Rita de Cássia, 26 anos, estudante do 6º ano de Medicina da UEMS, considera a formação acadêmica oferecida pela universidade positiva.

“A UEMS oferece uma base teórica sólida e um currículo que integra conhecimento científico e prática médica. Os quatro anos de fundamentos científicos promovem um olhar crítico e estudo baseado em evidências, e o internato, assim como os estágios, proporciona experiência prática essencial para desenvolver raciocínio clínico, autonomia e segurança no atendimento a pacientes”.

Ela também destaca a preparação para atuar no Sistema Único de Saúde (SUS) e em contextos de saúde pública: “Temos contato com o SUS desde o primeiro ano e aprendemos em diferentes níveis de atenção como fazer referência e contrarreferência”.

Mesmo assim, acredita que alguns pontos deveriam ser melhorados, Rita aponta como exemplo, a tutoria.

“Ela poderia ser mais estruturada e alinhada às necessidades reais da prática médica, com casos mais próximos do dia a dia e avaliações mais consistentes”. Ela acrescenta que a integração entre teoria e prática durante os módulos temáticos também poderia ser maior: “Seria importante ter contato prático com a área que estamos estudando naquele momento”.

Apesar dessas críticas, a estudante reconhece a contribuição da graduação para lidar com a pressão e as demandas emocionais da profissão: “A formação oferece suporte importante, mas esse aprendizado acontece gradualmente, tanto na graduação quanto na vida profissional”.

Consequências para cursos com notas baixas

Apesar de não haver impacto direto na formação individual dos estudantes, os cursos que obtiveram conceitos 1 e 2 no Enamed passam a integrar um processo de supervisão conduzido pelo MEC, por meio da Seres (Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior).

Em todo o Brasil, 93 instituições de ensino superior estão nessa condição. As medidas são aplicadas de forma escalonada, conforme o percentual de concluintes considerados proficientes. Cursos com menos de 30% de concluintes proficientes terão suspensão de novos ingressos; aqueles entre 30% e 40% sofrerão redução de 50% das vagas; e cursos com índices entre 40% e 50% enfrentarão redução de 25% da oferta.

Os cursos com conceito 2 que apresentaram proficiência acima de 50%, como os dois de Mato Grosso do Sul, ficam, por ora, impedidos apenas de ampliar vagas.

Avaliação do CRM/MS

O CRM/MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) recebeu os resultados com preocupação. Para a entidade, avaliações nacionais são fundamentais para revelar fragilidades na formação médica.

“Desempenhos insatisfatórios acendem um alerta para a necessidade de revisão dos projetos pedagógicos, da qualificação do corpo docente e da estrutura de ensino, especialmente nas atividades práticas”, afirmou o Conselho.

A entidade também alertou para riscos à população decorrentes de uma formação abaixo do padrão.

“Erros diagnósticos, condutas terapêuticas equivocadas e falhas éticas comprometem diretamente a segurança do paciente”, destacou.

Debate nacional

Os resultados do Enamed reacenderam o debate nacional sobre a criação de um exame de proficiência médica como requisito para o exercício da profissão. O CFM (Conselho Federal de Medicina) estuda utilizar as notas do exame como critério para concessão de registro profissional, enquanto entidades que representam instituições privadas criticam o caráter punitivo da avaliação.

Procuradas pelo O Estado, a Universidade Anhanguera-Uniderp e UEMS não responderam até o fechamento desta reportagem.

Por Suelen Morales

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