Publicado em 22/02/2026 às 13:30, Atualizado em 22/02/2026 às 13:15

Hospital da UFGD retoma captação de órgãos e reforça importância de avisar a família sobre desejo de doar

Rins e fígado de mulher de 44 anos beneficiaram três pacientes que aguardavam na fila de transplante

Redação,
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Foto: Reprodução

Após três anos sem realizar o procedimento, o HU-UFGD (Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados) retomou, no dia 4 de fevereiro, a captação de órgãos. A doação de rins e fígado de uma mulher de 44 anos, vítima de morte encefálica, beneficiou três pacientes que aguardavam na fila de transplante.

O procedimento reacende um debate necessário: a importância de comunicar aos familiares, ainda em vida, o desejo de ser doador de órgãos.

Em entrevista ao Jornal O Estado, a coordenadora da e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação de Transplante) no HU-UFGD/Ebserh, enfermeira assistencial Ely Bueno da Silva Bispo, destacou que a doação ainda é cercada por desinformação e tabu. Segundo ela, é fundamental ampliar o debate desde a educação básica, para que a sociedade compreenda como funciona o processo.

“A doação é a base para que ocorram os transplantes. Muitas pessoas vivem em diálise, enfrentam insuficiência hepática ou cardiopatias graves e aguardam na fila com a expectativa de melhorar a qualidade de vida ou até mesmo sobreviver. Mas para que alguém receba um órgão, é necessário que ocorra uma morte encefálica e que a família autorize a doação”, explica.

Morte encefálica e autorização familiar

A especialista ressalta que a morte encefálica é uma condição específica, geralmente causada por traumatismo craniano, acidente vascular cerebral (AVC) ou outras lesões neurológicas graves. O diagnóstico segue protocolo rigoroso previsto em legislação, com a realização de exames clínicos e complementares por médicos diferentes.

Somente após a confirmação da morte encefálica é que se avalia se o paciente possui condições clínicas para ser doador. Existem contraindicações absolutas, como algumas infecções generalizadas sem resposta ao tratamento, determinados tipos de câncer e outras condições específicas. Mesmo quando todos os critérios são atendidos, a decisão final é da família.

“No Brasil, não existe um documento que garanta a doação apenas pela manifestação em vida. Quem autoriza formalmente são os familiares, conforme estabelece a legislação. Por isso, é essencial conversar sobre o assunto enquanto se está saudável e consciente”, reforça Ely.

A enfermeira alerta que muitos potenciais doadores deixam de ter os órgãos captados porque a família desconhece sua vontade.

“Às vezes, a pessoa tinha intenção de doar, mas nunca falou sobre isso. No momento da dor e do luto, a família prefere não autorizar por insegurança”, afirma.

Ela também esclarece que nem todas as mortes permitem a doação de órgãos vitais. Em casos de parada cardiorrespiratória, por exemplo, geralmente é possível doar apenas tecidos, como córneas, quando há banco habilitado.

Ampliação do serviço em Dourados

Há expectativa de ampliação da captação de córneas em Dourados. Equipes trabalham para estruturar o serviço de forma permanente, tanto no Hospital da Vida quanto no HU-UFGD, o que pode aumentar o número de beneficiados na região.

Um gesto que divide opiniões

A reportagem foi às ruas para ouvir a população sobre o tema. A maioria dos entrevistados afirmou ser favorável à doação e disse já ter conversado com familiares sobre o assunto. Outros admitem nunca ter pensado na possibilidade ou mencionam motivos religiosos para não autorizar.

Servidor público federal, Cristo da Silva, de 73 anos, defende a doação desde a época em que atuou como enfermeiro no serviço militar.

“O médico é o mecânico de Deus, que conserta a única máquina que Ele criou. Não existe autopeças para o corpo humano”, declarou.

Já Fabíola Paziani, de 54 anos, que trabalha no setor administrativo da Santa Casa, afirma que o contato com o ambiente hospitalar ampliou sua compreensão sobre a importância da doação.

“Mesmo atuando na área administrativa, participamos de formações e acompanhamos a realidade de quem espera por um órgão. Isso faz entender o quanto a doação pode transformar vidas”, pontuou.

Um gesto que salva vidas

A retomada da captação de órgãos no HU-UFGD reforça que a doação é um ato capaz de salvar múltiplas vidas. Mas, para que isso aconteça, o primeiro passo é simples: informar a família sobre o desejo de ser doador.

Ana Clara Julião e Michelly Perez